segunda-feira, 4 de abril de 2011

As desventuras de Otto Stuppacher

Houve um tempo na F1 que era relativamente fácil você poder correr um GP. Desde que fosse um piloto amador, com bom currículo, era só comprar um chassi de linha corrente (Marchs, Brabhans, Lotus e Tyrrells), um bom motor Ford Cosworth, um punhado de pneus Goodyear e tentar a sorte contra os melhores pilotos daquela época. Isso foi muito comum quando a F1 visitava regularmente a África do Sul nas para realizar seus GPs. Pilotos privados compravam os carros e se inscreviam para disputar o GP. E isso não era apenas na África do Sul. Na maioria dos países que categoria passava, sempre tinha pilotos locais que compravam ou alugavam carros para poderem correr o seu GP local. No GP da Áustria de 1976 teve um desses casos que se tornou em um dos mais cômicos da história da categoria. O nome do individuo: Otto Stuppacher.
Oppitzhauser (esquerda) e Stuppacher: o primeiro desistiu logo na Áustria, enquanto que o segundo tentou se qualificar em outras três provas que foram extremamente mal sucedidas 


O piloto nascido em Viena em 3 de março de 1947 teve uma carreira formada basicamente em provas de subida de montanha na Áustria, onde conseguiu certo sucesso. Arriscou a sorte em algumas oportunidades em provas de longa duração, mas a sua melhor colocação nesse tipo de corrida foi na inauguração de Zeltweg em julho de 1969, quando chegou em terceiro ao volante de um Porsche 906 logo atrás do vencedor Andrea de Adamich e Jo Bonnier. Em 1970, lá mesmo em Zeltweg, dividiu um Porsche 910 do Bosch Racing Team com Niki Lauda. Largaram em 17º, mas encerraram a prova em 21º. Otto ainda tentou algo em outras categorias de turismo e endurance e na provas de subida de montanha, sem conseguir nada de concreto. Em 1972 ele abandonou o automobilismo, mas retornou em 75 para disputar provas de endurance.
No GP da Áustria de 1976, o time local, a ÖASC Racing Team, resolveu disputar a corrida e alugou junto a Tyrrell um velho 007 que a equipe do tio Ken havia usado até a temporada de 75. Era um bom carro, afinal tinha quase levado Scheckter ao título de 74 e ainda foi um bom carro na temporada de 75. Qualquer bom piloto poderia levá-lo, pelo menos, a largar no meio do grid. Otto foi inscrito para aquele GP, mas os comissários recusaram a sua entrada por entenderem que ele não tinha nada de interessante em seu currículo. Sentindo-se um tanto revoltado, tentou um abaixo assinado com os demais pilotos para que pudesse correr. Mas isso não aconteceu e ele ficou de fora da corrida. Seu conterrâneo Karl Oppitzhauser, pilotando um March 761, conseguiu treinar, mas não obteve uma marca decente para largar.
Dois GPs mais tarde, o nome de Otto reapareceu na lista dos pilotos que iriam disputar o GP da Itália. Desta vez ele conseguira se inscrever e persuadiu a equipe da ÖASC a disputar as últimas corridas daquele ano. Monza é um circuito rápido e de alguma forma, fácil de pilotar. O piloto não tem um trabalho brutal como correr, por exemplo, em Mônaco ou até mesmo em Nurburgring, onde a técnica conta muito. Mas Otto foi um daqueles casos que você olha e diz “sem chance”. No treino classificatório ele conseguiu ser 13’’97 segundos mais lento que a pole daquele GP, que foi de Laffite com a marca de 1’41’’35 e Stuppacher, assim, não conseguiu a qualificação. Mas o melhor estava por vir. Mais tarde Hunt e Mass pela Mclaren e Watson pela Penske, foram desclassificados após o treino por irregularidades no combustível e isso abriu a chance para Merzario e Otto poderem correr o GP italiano. Mas o desafortunado do austríaco tinha voltado para a Áustria no mesmo dia, e assim não pode se desfrutar desse presente. Em um desses casos obscuros da F1, a CSI acabou permitindo a volta de Hunt, Mass e Watson para o grid saindo da última fila.
A prova seguinte era o GP do Canadá e nada mudou com relação ao que tinha sido apresentado em Monza. Stuppacher conseguiu outra volta extremamente lenta, ao ficar 12’’695 segundos atrás da pole feita por Hunt com o tempo de 1’12’’389. Resultado: mais uma vez fora do grid de largada. E nem o fato de Amon e Ertl serem retirados antes do início da corrida, após se acidentarem durante o warm up, ajudou para que Otto pudesse participar. Enquanto seu nome já virava piada pelo paddock e alguns sugeriam seu retorno para sua belíssima Áustria (ele estampou no bico do seu Tyrrell uma bandeira da Áustria com os dizeres “Austria is Beautiful” e daí surgiu a piada solta por um comissário “Se a Áustria é tão bonita, porque ele não volta para lá?”).
 Até os dizeres "Austria is Beautiful" foram motivos de piadas. Sem dúvida ele deveria ter ficado por lá.


Se em Monza e em Mosport a exibição tinha sido penosa, o que dizer de sua performance em Watkins Glen, na semana seguinte? Primeiramente não vou comparar o tempo dele com a pole que foi, mais uma vez, de Hunt, mas sim com pilotos que estavam em situação de risco de não poderem largar. Os tempos marcados por Lunger (Surtees), Merzario (Wolf) e Pescarollo (Surtees) foram, respectivamente, 1’51’’373, 2’00’’932 e 2’05’’211. Pois bem, são tempos extremamente altos, visto que a pole de Hunt foi feita em 1’43’’622. Mas na última posição, para variar, aparece Otto e o que mais impressiona é o tempo que ele marcou: 2’11’’070, foram gritantes 27’’448 segundos mais lento que James. A CSI, como era de esperar, não autorizou a sua participação no GP.
A experiência que a ÖASC teve com Otto foi pavorosa. Um gasto danado que não surtiu em nada e talvez por isso, não tentaram nem ir para o GP do Japão. Mais tarde surgiu o fato que acabou explicando a sua lentidão durante os treinos: ele se preocupava mais em olhar os retrovisores para não atrapalhar quem viesse logo atrás, e assim acabou por fazer um dos maiores papelões na história da F1. Stuppacher desapareceu da cena automobilística ainda em 76 e só reapareceu em 2001 quando foi noticiada a sua morte em Viena, aos 54 anos.

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