quinta-feira, 7 de novembro de 2013

GP da Austrália, 20 anos atrás

Quando se presencia algo nessa vida, normalmente você não leva muito em conta o que aconteceu naquele momento. Mas passado algum tempo e dependendo do que acontecera, acaba se tornando simbólico. De certa forma esse foi o sentimento do GP da Austrália de 1993 que pôs fim ao histórico duelo entre Alain Prost e Ayrton Senna. Enquanto que o primeiro se retirava das competições com o seu quarto mundial conquistado naquele 1993, o outro rumaria exatamente para o lugar do rival francês em 1994.
Sobre a corrida foi a única oportunidade que Ayrton e a Mclaren tiveram de derrotar Prost e Williams e uma pista totalmente seca. Além da impecável pole de Senna - a única dele naquela temporada -, o piloto brasileiro impôs um ritmo alucinante durante todas as 79 voltas do GP australiano disputado no belo traçado citadino de Adelaide, vencendo com uma diferença de dez segundos sobre Alain Prost. O cumprimento dos dois mestres que dominaram e tiveram todos os holofotes da categoria sobre eles nos últimos seis anos, mostrou que ainda havia um resquício de respeito mutuo.
Mas um texto que foi publicado na edição 93/94 do anuário do Francisco Santos, escrito pelo jornalista francês Franoics Reste para o jornal L'Équipe um dia após a corrida, sintetiza bem o que foi a presença dos dois pilotos naqueles tempos:
"Como nas cédulas de dinheiro, revelando em filigrana o rosto de uma personagem célebre, a carreira de Alain Prost teve sempre a sombra de Ayrton Senna. Desde 2 de junho de 1984, num GP do Mónaco chuvoso que revelara o novo prodígio, o cenário da Formula 1 se articulou à volta destas duas personagens principais, que chegaram ao paroxismo de sua rivalidade em 1988 e 1989, os anos da sua coabitação na McLaren, levados com inteligência, mas pontuados por uma severa rutura.
Durante estes quase dez anos, os feitos de Prost não teriam talvez tido a mesma importância se Senna não existisse, e o contrário também é verdade. Será agora necessário nos habituarmos à ideia de um sem o outro. Como um casal jamais separado. Senna sem Prost, será um pouco D.Quixote sem o seu Sancho Pança.
Se já dá para sentir o vazio que a aposentadoria de Prost vai trazer a partir de 1994, Senna ficará ainda mais orfão que todos nós. Ao volante do seu Williams-Renault, o brasileiro, o último Campeão do Mundo ainda em atividade, vai se sentir bem solitário, mau grado todos esses jovens ainda longe de terem atingido a sua dimensão: Schumacher, Hill, Hakkinen e o nosso Alesi.
A sua caça aos recordes de Prost, notadamente o de vitórias, para o qual já só restam dez sucessos, fará provavelmente sobresair ainda mais a sua ausência do seu alter ego. Senna sabe tudo isso. como homem inteligente e sensível, não pode deixar de pensar nisso no momento em que derramou uma lágrima dpeois da chegada deste emocional GP da Austrália. Este romance que acaba de chegar ao fim com o adeu de Alain Prost, é também um livro que se fecha sobre ele. Na sua nova vida que chega, haverá um pouco da sua juventude que se vai."
Foi um belo texto e toda essa impressão descrevida por Franoics foi reforçada quase seis meses depois, após os acontecimentos do GP de San Marino. Foi uma bela época. 


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