quinta-feira, 1 de maio de 2014

Vinte anos depois...




Durante estes quase cinco anos do blog, procurei não me manifestar sobre o Ayrton Senna. Apesar da sua Tag estar entre as cinco que mais tem postagem por aqui, nenhuma delas tem a minha opinião direta sobre o piloto brasileiro. A não ser um texto que escrevi em 2010 sobre os seus duelos com Alain Prost, onde num parágrafo e outro expressei a minha visão sobre aqueles fatos de modo rápido sem tirar o foco com relação ao que eu escrevia na ocasião. Nesta data onde se completa 20 anos de seu desaparecimento, achei justo escrever um texto sobre ele.
Antes de tudo, declaro que sou sim, um fã do Senna. Mas não daqueles fãs ardorosos, que defende ele a unhas e dentes, consideram ele quase um santo, um Deus das pistas ou qualquer outro exagero que tenha se propagado durante este período. Na verdade, eu fico até incomodado com tudo isso. Acho que não precisa de tudo isso para dizer quem foi o Ayrton. Também acho que as pessoas que gostem dele, ou não, deveriam preservar um pouco mais a sua memória. Sei que é difícil, principalmente porque a cada transmissão da F1 o narrador sempre faz questão de exaltar os feitos do Senna. Sinceramente, já nos últimos anos, eu tenho baixado o som da TV e aumentado o da rádio. Tem sido muito mais lucrativo, afinal a informação vem mais rápido lá do que na TV. Sem contar que é muito mais agradável do que ficar ouvido as baboseiras “viuvistícas” dele. Creio que a cada lembrança que ele faça durante os GPs, o falecido se revire no caixão. Pobre Senna... Por outro lado, acho que é uma época inevitável essa em que vivemos: o período que vai de março a maio, é carregada de lembranças do piloto brasileiro. A estréia do piloto na categoria, o seu aniversário, a data da primeira vitória, a data de morte dele... E por aí vai. Ao menos nos locais que costumo ler, o pessoal é bem ponderado e isso me deixa feliz.
O que procuro preservar do Ayrton é a sua pilotagem. Esqueça toda aquela história de “túnel”, “Deus numa das curvas de Suzuka” e outras histórias famosas dele. Até porque tudo isso que ele falou era algo de sua crença e cada um acredita se quiser. Guardo apenas a sua pilotagem precisa, as poles com aquelas voltas canhão – apesar de ter perdido boa parte delas, pois a Globo começou a passar as classificações apenas em 1991 e quando transmitia a pole já estava garantida desde a sexta. Mas hoje, com a ajuda da internet, é possível ver uma boa parte delas. As corridas também são marcantes: não me esqueço da vitória de 1991 – eu estava com o dedão da mão direita machucado, mas me esqueci totalmente quando vi aquela conquista. Ou de Suzuka, 1988, quando eu fiquei acordado pela primeira vez para assistir uma prova de F1. No ano seguinte o incidente com Prost – me lembro de ter soltado um palavrão e ter sido repreendido pelo meu pai logo em seguida. Mas não adiantou: soltei outro palavrão na corrida de 1990, com a famosa porrada no Alain na primeira curva de Suzuka. Mais uma vez varei a madrugada acordado para assistir a decisão de 1991. Ah, a vitória em Mônaco 1992... Interlagos 1993, Donington... Foi bela época para um garoto que avançou dos cinco aos 10 anos de idade vendo as vitórias do Senna. Época boa.
Por outro lado, com o passar dos anos, percebi que o mesmo Ayrton fazia de tudo para conquistar o seu espaço: a famosa entrada na pista de Mônaco em 1985, andando lentamente atrapalhando os demais para que não tomassem a sua pole, despertando assim a ira de Niki Lauda e Michelle Alboreto; o não a possível contratação de Derek Warwick para ser o seu parceiro na Lotus em 1986; a assinatura do contrato com a McLaren por debaixo dos panos sem que os homens da Lotus soubessem – se bem que ele fizera isso em 84, quando assinou com a mesma Lotus deixando Alex Hawkdridge, chefe da Toleman, furioso a ponto deixá-lo de fora do GP da Itália daquele ano. E ainda tem toda aquela epopéia com o Prost, que muitos taxam da briga entre o “Bem contra o Mal” – outro exagero absurdo. Ayrton não era bonzinho e isso ficou bem claro naquela manobra de Suzuka em 1990, quando a gota d’água de tudo que vinha acontecendo desde 1989, foi a não troca da posição do pole. Apesar de achar que ele exagerou – e muito – na dose, sendo que mais um pouco o acidente poderia tomar proporções catastróficas. Mas vindo de um piloto sul-americano, de temperamento forte, dificilmente poderia ter uma atitude racional.
Por mais que ele fosse duro nas disputas, também era preocupado com os outros pilotos e a segurança nas corridas. O acidente de Martin Donnelly em Jerez, 1990, foi talvez a primeira vez que as pessoas tenham visto Ayrton preocupado com a questão da segurança nos carros e pista, tanto que conversou com Derek Warwick sobre a fragilidade do carro da Lotus naquela ocasião. Dois anos mais tarde encostou o carro na beira da pista para tentar salvar Eric Comas, que havia batido a sua Ligier na Blanchimont e voltado para o meio da pista. Segundo o próprio Comas, caso Ayrton não tivesse parado para socorrê-lo, talvez tivesse morrido sufocado – mais tarde o piloto francês declarou que, ao passar ao lado do Williams de Senna em Ímola, teria ficado impotente em não poder ajudá-lo. E ainda teve o acidente de Alessandro Zanardi em Spa, 1993, na subida da Eau Rouge... Como bem disse Martin Brundle, ele era um piloto que estava prestes a por a vida dele e outro piloto em jogo numa disputa, mas que era extremamente preocupado com os demais.
Para muitos o destino de Senna após a aposentadoria das pistas, seria a vida política. Assim acredita Jo Ramirez e o já falecido Sid Watkins. Para mim ele estaria engajado em algum projeto social além do Instituto que leva o seu nome. Para alguém que nunca gostou da política da F1, acho que ele sairia vomitando do que poderia vir a assistir no Planalto. Ayrton foi um cara que soube bem trabalhar a sua imagem com a imprensa, passando a imagem do bom garoto que durou até o início dos anos 90, dissipando exatamente após aqueles acontecimentos de Suzuka. Portanto toda essa comoção e exageros que aparecem de ano em ano, é fruto do que foi plantado por aquele naqueles tempos. Vale lembrar que foi uma época em que o futebol brasileiro não conseguia grandes feitos nas Copas e a economia estava uma lástima.
Passados estes vinte anos as lembranças do primeiro de maio continuarão vivas na minha memória e no dos outros que assistiram aquele final de semana em Ímola. Apesar de uma boa parte achar tudo isso um porre, uma encheção de saco, o tempo vai se encarregar de que a memória sobre Ayrton Senna vá se perdendo pelas décadas seguintes, até porque a geração que presenciou a sua pilotagem vai desaparecer aos poucos e a próxima não tem idéia da magnitude que Ayrton alcançou por aqui e sua imagem passará a fazer parte dos livros de história, assim como aconteceu com Jim Clark no passado.
O mais importante é que o legado deixado por ele e Ratzenberger depois daqueles dias negros em Ímola para a F1. E a saudade só aumenta.

Um comentário:

  1. As primeiras cinco linhas poderiam ser o início de um texto meu no blog. Sempre evitei falar do Ayrton também...

    Ótimo texto!

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