domingo, 3 de maio de 2026

Foto 1047 - Leone Zanardi

 

(Foto: eyeoncomo.wordpress.com)

O já saudoso Patrick Tambay disse certa vez que "as pessoas passaram a esperar o impossível de Gilles Villeneuve a cada corrida" e não seria nenhum exagero se ela servisse à Alessandro Zanardi. Na segunda metade dos anos 1990 era quase um ritual ligar a TV  na parte da tarde e assistir as provas da CART no SBT e, ao mesmo tempo que esperávamos uma vitória brasileira, também ficávamos de olho no que Zanardi poderia fazer ao comando do já mítico Reynard-Honda-Firestone da Chip Ganassi.

Realmente, Alex Zanardi era uma versão moderna do Gilles Villeneuve para a minha geração. Não vimos o impressionante canadense em ação, mas tivemos a oportunidade de ler e ver alguns vídeos de suas atuações memoráveis. Olhar o piloto italiano naquelas três temporadas em que ele esteve presente na CART, foi uma dádiva divina que nos fez imaginar o quanto que deve ter sido bom ver Gilles naqueles anos da Fórmula 1 entre 1977 e 1982. Por isso, foi muito bom agradecer a chance de vermos Zanardi brilhar nas pistas americanas e para ele, claro, foi também uma chance muito bem vinda, afinal de contas sabíamos que nem todos os pilotos que saíam da Fórmula-1 tinham grandes oportunidades de brilhar em outros locais - e se brilhassem, talvez não tivéssemos a chance de acompanhar.

Mesmo que a sua segunda passagem pela Fórmula 1 não tenha sido dos sonhos - ainda que ele acreditasse que poderia ter uma jornada melhor após aqueles dois títulos na Indy -, a volta para a CART lhe trouxe uma nova oportunidade de retomar o caminho do sucesso. O acidente em Lausitzring poderia ter colocado um ponto final na sua vida e carreira, mas o destino lhe reservara uma segunda oportunidade que foi muito bem aproveitada. "Foi então que Daniela me disse que eu havia perdido as pernas. Acredite ou não, aquele foi um bom dia. Pelo menos, eu sabia que estava vivo. Se eu tivesse visto alguém sem as pernas alguns dias antes do acidente, teria dito: "Prefiro morrer a viver assim". Depois de saber que havia perdido as pernas, percebi que esse era o menor dos meus problemas.", relatou ele a uma entrevista para o jornal inglês "The Guardian" em julho de 2007.

Dois anos depois ele estava de volta ao oval alemão para terminar as 13 voltas que lhe foram negadas naquela tarde de 15 de setembro de 2001. Elas foram completadas e automaticamente foi aplaudido de pé assim que saiu do Reynard. Ele ainda teria uma experiência no BMW da Fórmula-1 e voltaria à competir no WTCC naquela década com boas performances que lhe renderam quatro vitórias.

Mas foi no Handcycle Paralimpico que o seu nome ganhou forma ao vencer as mais laureadas competições como a Maratona de Roma e títulos mundiais no Campeonato Mundial de Ciclismo de Estrada em provas de estrada e contra relógio em 2013 e 2015. 

As Paralimpíadas, especialmente a de Londres 2012, acabou por coroar a carreira que ele escolheu seguir à partir de 2007 quando ganhou duas medalhas de ouro (contrarelógio e estrada) e uma de prata (revezamento), com todas as provas sendo realizadas no circuito de Brands Hatch. Ele repetiria a dose quatro anos depois nas Paralimpíadas do Rio em 2016, conquistando mais dois ouros (contrarelógio e revezamento misto) e uma prata no ciclismo de estrada. 

Zanardi foi um dos muitos pilotos que cruzaram o Atlântico para tentar a sorte na terra das oportunidades naquela segunda parte dos anos 1990. Chegou de forma tímida e ao final do seu ano de estreia, em 1996, já era um dos grandes da categoria. Enquanto que Bryan Herta deve ter tido alguns pesadelos com o Reynard Honda vermelho da Chip Ganassi, os fãs do italiano tinham muito o que comemorar e comentar no dia seguinte na escola ou no serviço, contando e se divertindo com os grandes lances e esperando pela próxima corrida para saber como seria o show da vez.

Alessandro Zanardi cumpriu a sua missão e após quase seis anos do seu último grave acidente, durante uma competição de Handcycle na Toscana em junho de 2020, ele  descansou no 1º de maio, mesmo dia que seu ídolo Ayrton Senna, mês onde repousa outros grandes do motorsport e onde ele estará pela eternidade. 

Bem como cantou o também saudoso David Bowie "Podemos ser heróis apenas por um dia", mas Zanardi é "Herói para todo o sempre".

Obrigado, Zanardi!

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